
Ela revê as fotos dele com cuidado. Cada traço do nariz, dos olhos, do queixo, da boca. Uma vez disse que na verdade ele não era tão perfeito. Mentira, daquelas que se sustentam porque foram ao telefone, se fossem pessoalmente seriam desmentidas. Fecha a pasta do computador com pequenas coisas guardadas, a pasta na verdade está guardada até dela. É tudo que sobrou ali dele.
Não têm fotos juntos, não tem cartas, não tem postais, recadinhos, flores secas, nada. Nada. Exceto aquela pasta que ela finge até pra ela que não existe, ignora. Lá tem também uma música que uma vez ele dedicou à ela em silêncio, mas que sabia que era pra ela.
A separação foi regular, daquelas que não tira lágrimas mas dá um pesar no peito. Deixou saudade e deixou a pasta. A pasta era a perdição da vida dela, afinal, ela nunca teria coragem de apagar e tirar ele de vez de lá. Ainda olhava pro sofá rasgado e vazio a procura de uma lembrança mas tudo que sobrou foi saudade, daquela que não deixa qualquer resquício de cena que seja aparecer na memória de novo. O sapato que com ele, ela nunca estreiou, o batom que já não serve pra mais anda perdido na bolsa para prováveis encontros, ela não queria mais sentir o gosto de abacaxi na boca de novo. O revista no trem a distrai até que aquela angústia é tão forte que ela acaba por desistir do artigo, olha pra janela e fica lá, fixada num ponto qualquer do horizonte cruel.
Deita na cama, abraça um travesseiro velho e permanece no quarto escuro. O ventilador ligado numa velocidade baixa faz um ruído que incomoda mas ela não muda de posição. Fica. Cede a sí mesma mais uma semana de fossa. Depois daí, passa.
