quarta-feira, 7 de março de 2007

http://mundodascoisaspequenas.blogspot.com/2007/01/bege.html

Às vezes eles pegavam o elevador junto. Célia sabia que aquele homem morava no 4° andar de seu prédio, na rua das Bananeiras num bairro antigo de sua cidade perdida na fumaça. Ela descia no primeiro mesmo. Mas fazia questão de pegar o elevador na volta do trabalho pra encontrar com ele. Lucas. Sabia depois de bisbilhotar em sua correspondência. Sozinho por assim dizer, ele morava com o avô. Lindo senhor de 82 anos de idade. Mudaram para o prédio aproximadamente dois meses.

Por três dias Célia e Lucas não pegaram o mesmo elevador e ela não o viu no prédio. Segundo o síndico, Xavier, o avô de Lucas estava no hospital. Louca seria ela se fosse até lá, ou se não fosse. Por via das dúvidas, deu um beijo na testa de sua gata, pegou as chaves do carro e o documento e foi. Aquels dois viraram de repente os homens de sua vida dentro daquele prédio. Como se existisse esperança ou compania.

Chegou e não soube por quem procurar. Por sorte o franzino senhor estava na área de arborização do hospital, perto da entrada. Concentrada, foi até ele com a desculpa de que aquilo era apenas uma coincidência.

Chegando na frente do senhor, sentado num banco com um enfermeiro perto ela perguntou "o senhor lembra de mim?" e ele nada respondeu. O enfermeiro virou-se e o alertou sobre a chuva que podia ser prejudicial à ele naquela situação e ele respondeu num sorriso de quem já perde a identidade dos lábios:
"A chuva, seu moço, a chuva melhora tudo".

Célia entendeu quem ele era e porque era. E agora eu não conto mais a história da mulher que enxergava tudo bege. Sua filha vai chamar Chuva. Porque Chuva melhora tudo.